Gota D'Água
Chico Buarque e Carlos Pontes
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Medeia
Eurípedes
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Mata Teu Pai
Grace Passô


ATAS DAS DISCUSSÕES


ENSAIOS

A inspiração por trás da obra

Uma análise do papel da mulher antigamente e na sociedade atual por três narrativas diferentes

Agatha Melissa


Toda história é uma construção. Há quem diga por aí: "nada se cria, tudo se copia". Não sei se concordo ou não, visto que toda criação tem uma referência, mas o que torna algo diferente é seu criador, pois cada um é uma junção de ideias, princípios, opiniões, pensamentos, gostos, afetos e influências. Obras se inspiram em outras obras, e uma completa a outra. Sendo assim, não há quem esteja mais certo ou mais original. Tudo se modifica a todo tempo. Uma obra passa a ser diferente quando se muda o leitor.

Começando, então, a resenha sobre os livros, é preciso dizer que Gota D'água é diretamente ligada a Medéia, fazendo-se necessário abrir uma contextualização sobre tal obra. É importante ressaltar que Medéia é um livro de 431 a.c., escrito por um dramaturgo grego, Eurípides. Ele retrata a história de Medéia, focando na mulher ateniense e, consequentemente, em seu papel na sociedade da época.

Por ser uma peça, é interessante o contato diferenciado que o leitor sente, pois é como se estivesse entrosado no ato, acompanhando o diálogo como quem está presente na cena. Há uma grande representação do Coro, é um elemento da encenação, mas é, também, o comentador, narrador composto por vozes femininas, que sofre influência dos pensamentos de Medéia.

É irônico pensar nos ideais pré-feministas presentes em alguns discursos, visto que o autor é um homem de um século distante. Mais um fato marcável é a construção do caráter dos personagens, como não há algo certo e sim uma subjetividade forte. Medéia é uma mulher forte e extremamente apaixonada, mas que passa por uma grande desilusão. Sentimentos como raiva, angústia, mágoa, inveja, solidão, paixão, anseio são muito retratados em suas falas, e é notável como ela se mostra capaz de fazer qualquer coisa para que seu parceiro se arrependa de seus feitos. Com isso, mais uma crítica se torna presente na obra: a mulher e a maternidade. Que tipo de mãe é capaz de matar seus próprios filhos, sendo o papel principal da mulher, além de ser esposa, é ser mãe? O desejo de vingança da protagonista leva à morte de seus filhos, e não é visível um sinal de arrependimento. Ao matá-los, ela tenta atingir Jasão, porém este nunca mostrou um laço afetivo com os tais. Ela não mostra arrependimento.

Com Gota D'água, temos uma história-base igual. A remanescência dos nomes dos personagens masculinos, como Jasão, Egeu, Creonte é questionável, visto que os nomes femininos mudaram, mostrando, talvez, como os homens permanecem os mesmos, com as mesmas atitudes machistas, parados no tempo.

Os homens e mulheres da vila exercem uma função parecida com o Coro de Medéia, reafirmando, mais uma vez, a conexão das obras. As mulheres conversam sobre a situação de Joana, na ausência prolongada da mesma durante o primeiro ato, e os homens servem como coro às falas de Jasão. Enquanto as conversas entre as mulheres têm um ambiente mais acolhedor, são mais compreensíveis e mais sensíveis, as conversas entre os homens são infantis, contém muitas piadas e têm respostas superficiais.

Eu achei bem divertida a forma como a musicalidade está envolvida nos diálogos, e como as falas em diferentes ambientes vão se interligando, como se um estivesse respondendo ao outro. Ao longo da obra, Joana repete o pensamento de Medéia a respeito dos filhos, mas se mostra mais sensível. A instabilidade emocional e a inconstância são muito presentes, fazendo uma releitura da realidade e tragando o leitor cada vez mais.

Em alguns momentos, a protagonista se mostra preocupada com o futuro do filhos em um mundo, segundo ela, sem esperanças. A morte é uma "desculpa" para poupá-los do sofrimento que a vida lhes traria. Já em outras passagens, ela se encontra irritada e frustrada com seu estado na maternidade, como ela se sente usada e abandonada. A morte do filhos, nessa situação, já é visto como um alívio para ela própria. Novamente, a construção dos personagens se mostra muito complexa.

No final do primeiro ato, há uma cena chave para um desencadeamento de variados sentimentos, cena tal que me fez arrepiar e querer entrar na história e mudar tudo. A discussão entre Joana e Jasão é uma das cenas mais confusas, emocionantes, revoltantes que já li. A montanha-russa de emoções de Joana e a forma como o diálogo é construído envolve o leitor e faz com que o mesmo se sinta acompanhando tudo do lado. A raiva da mulher se mistura com a necessidade de ter seu "provedor" ao lado novamente.

O jeito como Joana implora por Jasão logo após a agressão é uma crítica total ao que ainda acontece nos dias atuais, e os autores deixam isso para a interpretação pessoal de cada um. Analisando o comportamento de Jasão durante essa mesma cena, nota-se como ele vai ficando agressivo ao passo em que ela vai despejando mais e mais argumentos, é como se ele estivesse reagindo ao seu silenciamento através da força do braço.

Quando Joana mata seus filhos, ela mata a única ligação que restava com Jasão, e ao matar-se, ela prova que não existia mais nada dela depois de perder tudo. Além das críticas ao patriarcado, machismo, papel da mulher na sociedade, a obra também faz críticas sociais, quanto à questão do trabalhador que é colocado pra fora de casa por não conseguir pagar o valor do aluguel, o conceito de quem é o honesto da história, quem está certo ou errado não é explícito, mostrando mais uma vez a complexidade dos personagens. O mau acabamento dos personagens é proposital e é bom, pois mostra a linha tênue entre o ódio e o amor, o justo e o injusto, o certo e o errado, e como as coisas não são tão preto no branco assim.

Para finalizar, falo sobre o incrível conto Mata teu pai, de Grace Passô. A própria protagonista se nomeia Medéia e assume suas características semelhantes, procurando como justificar seus atos através de uma personagem.

A autora conta uma história através de repetições, indo e vindo, acrescentando detalhes aos poucos, com o intuito de construir junto com o leitor e fazer uma conexão do início com o final mais completa. É interessante a forma como o público também é um personagem, lembrando um pouco as obras anteriores, que tinham o Coro.

Os sentimentos são verbalizados de forma muito mais intensa durante a fala e, mesmo sendo um monólogo, a maneira em que o texto foi construído dá uma sensação parecida com a que os diálogos curtos oferece. Um ponto extremamente positivo é a ausência de Jasão, porque não dá voz a ele e, portanto, não abre brecha para que alguém sinta compaixão por ele.

Parece que ao longo do texto, ela vai ficando cada vez mais sentimental e confusa, mudando suas decisões na hora e externando pensamentos, sem nada consistente. Ela claramente não está em um estado estável e acaba me fazendo associá-la à Joana, na cena da discussão com Jasão.

A mulher se refere muitas vezes à febre, deixando cada vez mais nítido a relação que ela faz entre a paixão e uma doença, mais uma maneira dela justificar suas ações e seus delírios. A história me pareceu mais pesada, acredito que por ter sido o único das três obras que tenha sido escrito por uma mulher, mas também pelo fato de ser mais clara, mais direta e, ao mesmo tempo, com as repetições e os acréscimos graduais de informações, introduzir situações pesadas repentinamente.

Um fator chave presente na obra foi como a Medéia, dessa vez, não tem raiva da amante de seu marido, não há rivalidade entre ela e a outra. Os filhos de Medeia são substituídos por filhas nesse conto, o que torna mais razoável a justificativa de proteção, autopreservação e revolução que a mulher prega. Diferente das outras obras, ela não se mata e pode-se ver isso como mais uma forma de afirmar que ela não se rende, ela não se entrega; ela é indomável.

Por ser uma obra mais atual, escrita por uma mulher, com personagens femininos e tendo o entrosamento do público como personagens - as filhas -, ela provoca sentimentos mais fortes de revolta e descontentamento com o que muitas mulheres passam até hoje e com a forma como o patriarcado ainda está extremamente presente na nossa realidade.

O desfecho é uma forma de chamamento da mulher: "E continuar com essa história por tempos e tempos, e vocês vão crescer e caçar por aí alguém que negue o que ele foi? Olha pra mim! Muda essa história! Pare de achar que a gente é um destino, muda essa história." É quase um clamor para que mulheres se levantem, lutem não só pelos seus direitos, mas umas pelas outras e não se submetam mais. Mata teu pai é um convite à matar o patriarcado.

Analisando as três obras, que contém uma mesma base mas seguem diferentes vertentes, vemos uma grande construção sobre o papel da mulher na sociedade e como ela é vista e representada de forma depreciativa e exagerada quando foge do padrão exigido de mulher. São leituras não tão acessíveis, pois exigem uma capacidade crítica do leitor para conseguir ver onde é ironia e onde é exagero, ou pode-se obter o resultado oposto ao desejado, mas são leituras muito importantes, pois ajudam a pintar um cenário muito recorrente e serve como alerta e conscientização para outras mulheres.


A mudança que não muda

A jornada histórica da mulher em três narrativas literárias

Juliana Rodrigues

Às vezes a gente só percebe que ficou marcado por algo ou alguém quando o tempo passa e podemos observar um pouco mais de longe o momento. As experiências literárias, se realizadas com o coração através de um olhar crítico, têm esse efeito na gente. A análise de um texto pode falar muito mais sobre nós mesmas do que sobre aquilo escrito ali. E é exatamente sobre isso o que lê nesse momento: interpretações que fizeram com que eu me descobrisse e me transformasse enquanto estudante e mulher.

Em um primeiro momento, é preciso falar de Medeia. Recheado de metáforas complexas, figuras de linguagem e uma escrita difícil, é necessário ler e reler o livro para então você começar a se situar. Dentre as obras que serão tratadas aqui, essa foi a mais difícil para mim e, encarando o texto na tentativa de entendê-lo, me senti incapaz. Foi com as discussões nas reuniões que, aos poucos, as peças foram se encaixando.

Para que seja compreendida a magnitude do livro de maneira integral, o contexto histórico no qual foi escrito é essencial. Medeia, datada do século V, compõe o gênero teatral denominada tragédia grega, um dos mais encenados na Grécia Antiga. Na época, a sociedade e o teatro eram estritamente vinculados, e o segundo apresentava não apenas uma importância para as crenças dos indivíduos, mas também tinha uma função social e cívica. Nesse sentido, a obra se faz então extremamente relevante, uma vez que aborda questões que estão em pauta até os dias atuais, como o papel social da mulher -temática trazida também nos livros lidos em sequência: Gota d'Água e Mata teu Pai.

A princípio, o que mais me intrigou na obra foi o fato de que por volta do ano 430 a.C estava sendo escrito um texto que já apresentava realces do que, hoje, é nomeado "feminismo". Isso está presente principalmente na construção da personagem Medeia e daqueles que a cercam, uma vez que os discursos do texto têm como característica principal a ambiguidade: ora são marcados por posicionamentos que questionam a estrutura social, ora por posicionamentos que a naturalizam.

  • "Dizem: como nós vivemos em casa uma vida sem risco, e ele a combater com a lança. Insensatos! Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe!" (PÁGINA 12)

  • "Além de que nascemos mulheres, para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas." (PÁGINA 16)

Os trechos acima ilustram bem a ambiguidade tratada. Ao divergir do papel feminino imposto pela sociedade preferindo o combate à maternidade, Medeia, no primeiro trecho, apresenta um discurso com teor "revolucionário" para a época e a sociedade na qual está inserida. Por outro lado, poucas páginas depois a personagem deixa para trás esse caráter progressista e afirma estereótipos que até os dias atuais existem. Contudo, mais tarde, analisando de maneira mais crítica a obra, percebi o quão problemático era classificá-la como feminista: afinal, que feminismo é esse no qual uma personagem realiza todas as suas ações com o objetivo de atingir um homem?

Além disso, o Coro é um aspecto muito interessante. Construído de maneira extremamente inteligente e com uma intenção bastante rebuscada, o Coro possui um papel que vai muito além de um simples personagem no texto. Ao ser composto apenas por mulheres, ele tende a ter uma "empatia" pela personagem principal, uma vez que passam por situações semelhantes. Dessa forma, sem nem ao menos notarmos, esse personagem, com suas reflexões e comentários acerca das ações de Medeia, guia nossas ideias, fazendo com que nós, leitores, tenhamos um julgamento mais brando de suas ações. Ao entender a jogada do autor, só me coube uma palavra em relação ao recurso: sofisticação.

Outra questão da obra, responsável por acirradas e calorosas discussões, inclusive, é o assassinato dos filhos de Medeia e Jasão que a mãe comete. Medeia, com seu desejo de vingança, só conseguiria atingir Jasão através dos filhos e por isso os mata, para machucar o homem profundamente e romper, por fim, com tudo aquilo que os relacionam. E, assim, novamente fica claro a ambiguidade que envolve toda a tragédia: seria o ato um empoderamento feminino, uma vez que finda os laços da mulher com a maternidade ou um ato que reflete a misoginia da sociedade inserida, uma vez que Medeia só comete a ação em prol do homem? A primeira opção me parece absurda.

Em um segundo momento, li Gota d'Água. Escrito em um contexto completamente diferente de Medeia, o livro de Chico Buarque, da década de 70, é uma releitura da tragédia grega. Dessa forma, a comparação entre as duas obras é extremamente enriquecedora.

A princípio, a questão mais relevante que percebi foi acerca dos nomes dos personagens. Enquanto os nomes masculinos continuaram os mesmos, como Jasão e Creonte, ou tornaram-se mais infantis, como Xulé, Cacetão e Boca Pequena, os femininos estão de acordo com a época. Ao decorrer da narrativa, é notório que nada disso é por acaso. Os nomes masculinos que continuaram os mesmos, representam a permanência do machismo estrutural. Já a mudança dos nomes feminino e a infantilização dos masculinos, representou para mim algo muito familiar, que pode ser descrito por uma conhecida fala que deixa de lado o encurtamento da infância das mulheres e a erotização dos corpos das mesmas desde quando crianças: "as meninas amadurecem primeiro que os meninos".

Outro fator que escancara o machismo da sociedade na obra são os espaços onde os personagens socializam. O ambiente no qual as vizinhas conversam e ficam juntas me faz pensar em um lar, uma vez que se mostra um lugar um tanto quanto tranquilo, aconchegante, onde as moças estão envolvidas por empatia; o dos homens é o bar, marcado por brincadeiras, irresponsabilidades. Fica evidente então, outro pensamento clássico no qual a mulher é tida como dona do lar e o homem como sujeito da rua, do botequim.

Inclusive, ao citarmos as vizinhas e os homens que ficam no bar, é imprescindível que se trate acerca dos seus papéis na obra. Esses personagens apresentam uma função muito semelhante ao Coro, em Medeia. Porém, em Gota d'Água, esse "coro" é dividido em duas partes. Há o coro de Jasão, composto pelos homens do bar e também o coro de Joana, formado pelas vizinhas, que, a partir de discursos maduros e responsáveis, discutem maneiras de ajudar a moça. Assim, diferente da forma que ocorre em Medeia, nesse texto o coro reflete as percepções da situação a partir das diferenças de gênero.

Durante toda a narrativa, a parte mais sensível para mim foi a discussão entre Joana e Jasão que resultou em violência. À medida que a mulher transborda argumentos, Jasão não é capaz de dialogar, utilizando então da agressão para se expressar. Essa passagem evidencia a maneira como grande parcela dos homens lidam com seus sentimentos até hoje. Uma vez que toda sociedade associou desde cedo a emoção desses meninos à fraqueza, eles transformam e externizam o que sentem em forma de violência. A mulher, em contrapartida, é ensinada a não apenas se comunicar e falar sobre seus sentimentos, como também a ser sempre uma figura muito emotiva. A reação de Joana ao ato do homem, marcada pela súplica pela atenção e amor de Jasão, mostra a realidade de inúmeras mulheres, que, sem possuírem a consciência daquilo que lhes ocorrem, naturalizam toda a ação.

Finalmente, depois de tantas análises e interpretações, chegamos ao livro no qual experenciei as melhores e mais intensas sensações. Mata teu Pai, a obra mais atual dentre as três, é simplesmente fantástico. É claro que após ser realizada anteriormente a leitura dos dois livros tratados acima, a história não tem um impacto tão grande, contudo, a escrita, as representações e a forma como o tema é abordado simplesmente fizeram com que eu me encantasse.

A respeito dos personagens, diferentemente dos outros dois textos, em Mata teu Pai não há nenhum que faça referência ou tenha uma função parecida com Coro do primeiro livro. Além disso, os personagens com nomes referentes aos seus locais de origem fazem forte referência à Medeia do século V, que era estrangeira, e mostra a atualidade do texto, uma vez que a questão do imigrante vem sendo intensamente discutida não só no Brasil como em todo o mundo. De um jeito genial, a autora utiliza recursos, como a repetição do texto, que promovem uma aproximação entre as leitoras e a obra, fazendo com que todas as impressões sejam tidas de maneira muito mais intensas.

Ainda sobre essas diferentes personalidades, algumas características de cada uma são primordiais para a construção da discussão trazida pelo livro. Aquela que mais me provocou foi a personagem paulista, que representa bem o conservadorismo da sociedade. Seus posicionamentos e atitudes em diversos momentos da narrativa me despertaram diferentes sentimentos de uma vez só. Raiva, tristeza, indignação. É isso que ela me fez sentir. Em uma passagem da página 32, Medeia relata que contou à paulista que foi agredida, abusada, e essa responde direcionando seu pesar ao estado do marido perante a situação. Uma mulher relata um estupro e a preocupação é com seu esposo. Eu queria que isso fosse apenas ficção.

Outro aspecto que diverge dos outros livros, é o estado mental da personagem principal. Nos primeiros textos a mulher realiza todos os seus atos em sã consciência, movida apenas pelos seus sentimentos; já no último, Medeia está delirando, doente, apresentando assim uma certa justificativa para aquilo que pensa e a forma como age. É importante pontuar o nome daquilo que a mulher possui, febre, pois na narrativa isso não tem apenas um sentido clínico, mas também representa o vínculo metafórico entre a patologia e a paixão que a move.

No mais, o entendimento acerca da troca do gênero das crianças filhas de Medeia (ou Joana) e Jasão foram extremamente relevantes para a minha experiência literária. Dentre todas as interpretações possíveis acerca da causa dessa mudança, a que mais me afetou diz respeito ao fato de que as filhas, sendo mulheres, poderiam sofrer tudo aquilo que a mãe sofreu. Essa pode ser a razão, inclusive, da mãe ter matado as crianças, como uma tentativa de protegê-las de toda violência instaurada pelo machismo. O pai, do título do drama, representa todo patriarcado e "Mata teu Pai" é um clamor por mudanças.

Diversos artifícios durante o texto são essenciais para que nós, mulheres, possamos entender de maneira integral tanto a narrativa quanto o diálogo realizado com as leitoras. Nesse sentido, diversos são os fatores que levam à aproximação do público feminino com a obra. As falas, que não são apenas extremamente provocadoras como também parecem interagir com aqueles que leem o texto ou assistem à peça, fazem com que todas as passagens sejam sentidas de forma muito mais intensa. As palavras despejadas por Medeia são as palavras de todas mulheres que não têm voz ou que não podem falar. Tudo é dito para e por elas. Desse jeito, a autora deixa explícito a sua intenção com a peça: instigar a transformação e ressignificar tudo aquilo atrelado ao feminino.

Há na Sociologia um conceito denominado "status quo", que se refere a situações nas quais são realizadas mudanças superficiais que não transformam de maneira profunda o estado anterior. Quando o assunto é o papel social e histórico da mulher, esse termo é perfeitamente cabível para discussão. Séculos se passam, debates são realizados, termos são alterados, moças parecem ganhar espaços. Contudo, não é necessário muito esforço para notarmos o óbvio: mulheres continuam sendo violentadas a todo momento de inúmeras formas, nossos problemas ainda são os mesmos. No fim, Medeia de Eurípedes, Joana e Medeia do século XXI continuam vivas e gritam fortemente dentro de mim e de você, leitora.


Quem são e o que se espera das filhas da Medeia

Ensaio sobre a capacidade de se interpretar antes de ser guiado pelo padrão de interpretações que esperam de nós

Maria Eduarda Alves Cavalcanti

"Há muito o que observar, muito a admirar, pecinhas para desconcertar, peças faltantes para nos deixar enfurecidos, e nenhuma possibilidade de, em algum momento, ficarmos satisfeitos, por muito tempo, com uma única e exclusiva solução." - David Bradshaw


No dia 7 de junho de 2019, dei início a um projeto dedicado a entender mais a fundo a relação entre o ato de ler e os alunos. Começando por esse ponto, esse projeto, integralmente composto por mulheres, fez com que nós nos esbarrássemos em sensações, vivências e pensamentos similares aos que tivemos durante nossos respectivos momentos de leitura ao longo de nossa vida. E, mesmo tendo encontrado várias vezes diversos pontos em comum durante essas leituras, era fantástico reconhecer e compartilhar cada vez mais a subjetividade de cada uma em seu próprio modo de ler e interpretar. Ao mesmo tempo, fortalecíamos nossa coletividade de mulheres leitoras, autoras de nossos próprios pontos de vista e interlocutoras dos das demais.

Nossa trajetória pela análise da leitura e da releitura das obras literárias cobradas nos exames de vestibular da UERJ de 2019 teve como ponto de partida a compreensão do que se cobra no sistema de ensino brasileiro e do que se espera previamente dos estudantes. É preciso, antes de tudo, compreender que o Rio de Janeiro possui um sistema de ensino que sustenta a forma desumanizadora de disseminar a cultura da meritocracia nas escolas, estimulando a obrigação de se produzir em larga escala e cada vez mais rápido, a comparação, a competitividade e o individualismo entre os jovens, principalmente no processo de sua prestação do vestibular. O curioso é que, apesar da cultura da meritocracia incentivar os jovens a se tornarem cada vez mais individualistas nesse processo de preparação para vestibular, suas subjetividades são postas em jogo quando se veem na necessidade de interpretar uma obra literária por um resumo pronto de outrem, por uma análise guiada passo a passo, capítulo por capítulo e pelo professor.

Em seguida, partindo de Michèle Petit e traçando trajetórias mais marcantes a partir de Medeia e de obras baseadas na mesma, ressignificamos tudo aquilo que é ligado ao feminino e a experiência de ser uma leitora mulher em uma sociedade secularmente sexista e machista. Apesar de nosso primeiro passo ter tido a intenção de focar na leitura de obras cobradas pelo vestibular da UERJ sob a ótica discente, escolhemos juntas - naturalmente - explorar a ótica discente sobre as obras cobradas pelos exames da UERJ incorporadas à nossa recepção e nossa experiência de mundo como mulheres.

A obra da mitologia grega Medeia foi uma das leituras mais marcantes para mim nesse processo porque a vejo como mãe das outras obras que também analisamos: Gota D'Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, e Mata Teu Pai, de Grace Passô. Medeia traz à tona o modo como os comportamentos e mentalidades humanos da Grécia antiga podem ser facilmente vistos nos tempos atuais. É em Medeia que nós vemos a personagem feminina que reconhece o seu poder próprio e o modo como um homem se sente na necessidade de impedir o mundo de vê-lo e de senti-lo em sua totalidade a partir do momento em que a reduz à condição da maternidade. "Como eu preferiria mil vezes estar na linha de batalha a ser uma só vez mãe!", vocifera Medeia para o público a sua angústia e a sua raiva. Essa angústia e essa raiva ainda existem, adaptando-se a cada contexto e a cada época, mas permanecendo viva entre nós mulheres.

Acompanhada de um coro composto pelas mulheres de Corinto, acredito que o leitor, principalmente a leitora mulher, também consegue sentir um toque de presença da empatia vinda dessas mulheres, apesar de também corresponderem às reações do público - como uma espécie de guia - que ouviam a essas histórias antigamente. Já o coro de Gota D'água é composto pelos homens no bar - que são uma espécie de coro de Jasão, abordando falas e opiniões imaturas, irresponsáveis e insensíveis sobre Joana - e pelas mulheres trabalhando em casa - que discutem sobre a situação de Joana de uma maneira muito mais empática e responsável, a fim de ajudá-la. Ao meu ver, vale pontuar que a representação dos espaços e dos diálogos frequentados pelas personagens masculinas e femininas, apesar da distância temporal e espacial desde a tragédia da antiga Grécia até os anos 60 de uma cidade brasileira, mostram-nos que a mentalidade patriarcal que divide a sociedade em "o que é ser e o que cabe à mulher" e "o que é ser e o que cabe ao homem" permanece sendo reproduzida e fortemente defendida por muitos atualmente da mesma maneira como era há séculos atrás.

Esse jogo de espaços de cada coro em Gota D'Água é essencial para a representação da horizontalidade das relações interpessoais femininas que gera um espaço de sociabilidade encharcado de empatia, conselhos e compreensão - que, infelizmente, pode ser contaminado pela verticalidade da sociabilidade masculina, gerando rivalidades que não seriam naturais se não vivêssemos numa sociedade patriarcal. Ademais, acredito que o principal link que conecta a história de Gota D'Água com a nossa próxima leitura é justamente a horizontalidade da sociabilidade feminina, numa história cujo objetivo, para mim, soou como um grito de urgência pela necessidade de união feminina e pela necessidade de matar o patriarcado.

Mata Teu Pai, de Grace Passô, ao mesmo tempo que me fez estar na posição de Medeia, me joga brutalmente na plateia como se essa Medeia passasse a estar na minha frente gritando aos nervos - e com razão - para que eu me esforçasse em erradicar todo e qualquer sinal de subalternidade aos homens com quem convivo. "Vocês mudam algumas palavrinhas de seus vocabulários pra dizer que acham injusto esses mesmos homens de sempre, mudam alguns pequenos jeitos de se vestirem, uma ou outra coragem nasce em algum minuto, mas romper mesmo, abraçar a justiça com verdade, isso vocês não fazem.", nos lembra Medeia, nos lembra Grace Passô. E é verdade. Isso acontece porque é sempre de nós, meninas e mulheres, que o mundo espera. "De nós esperam os filhos, de nós esperam amor e amor e amor, de nós esperam a força descomunal, o trabalho, dentro e fora de casa, de nós esperam o gozo, a beleza, até o mistério." Esse trecho da página 40 do livro Mata Teu Pai me marca por ter posto com maestria um discurso tão direto para nós mulheres que é rapidamente compreendido e sentido, justamente porque ele é coletiva e pessoalmente muito genuíno. Apesar de nunca largarmos a bandeira pelo nosso espaço e pela nossa voz na sociedade quando percebemos os efeitos do patriarcado sobre nós, muitas vezes somos - paradoxal e infelizmente - forçadas a abaixá-la ou a escondê-la para podermos permanecer em outros. E quando falhamos nessa questão, é porque nos forçam a acreditar que somos falhas. Às vezes só nos inserem em determinados espaços quando concordamos silenciosamente em sermos submissas, da mesma forma como nos retiram de outros quando nos impomos. Às vezes somos filhas de Medeia, em outros somos Medeia. Afinal, somos humanas.

Valendo para essas e para todas as outras obras que já li, quando a "quarta parede é quebrada" e estou diante de uma ficção, automaticamente me encaixo na personagem com a qual mais me identifico durante a leitura - encaixando até mesmo as minhas próprias feições na estética física dessa personagem. Ter feito esse mergulho nas Medeias - a do conto antigo e a de Grace Passô - e na Joana, que são personagens femininas fortes que passam por situações as quais nós mulheres vivemos cotidianamente, foi uma experiência literária muito marcante. De fato, acrescenta muito na minha bagagem como leitora, como mulher e como pessoa. Mas na lógica que nos é cobrada pela escola e pelo vestibular, é impossível não acabar me questionando: em que isso me acrescenta como aluna e como vestibulanda? Será que mergulhar muito fundo nessas histórias, do meu próprio jeito, vai atrapalhar meu desempenho nos exames, nos vestibulares? E se eu tiver interpretado por um caminho que não foi o mesmo seguido pelos que preparam as questões que serão cobradas?

Mas esses são questionamentos provindos da pressão externa que cai sobre nós, fazendo com que nós mesmos nos pressionemos, às vezes fazendo com que deixemos de lado toda a nossa subjetividade para nos apertarmos na trajetória padrão que se espera de todo vestibulando. E leituras sem guias, sem análises de terceiros, deixando nossas próprias consciências e experiências de vida nos levar pela história faz com que eu me lembre de quem eu sou e até mesmo com que eu descubra mais sobre quem eu quero ser. Faz-me lembrar que, na minha própria história, eu sou a autora, eu sou a protagonista, eu sou a receptora e a leitora mais ávida. E se me apertarem numa trajetória padrão como a que esperam de todos, ficarei cega para novas interpretações - de mim, sobre mim, do mundo e sobre o mundo.


Identidade sob análise

A relação direta entre leitura ativa e a construção de si

Beatriz Deluiz

Há algum tempo, em uma aula pré-UERJ, um professor comentou sobre como o trabalho para não ser um leitor passivo é difícil. Ler um texto e conseguir conduzir seu próprio raciocínio através da experiência de leitura, reparando nos caminhos que o autor espera que sejam seguidos, mas sem ser totalmente guiada por eles de forma quase involuntária exige prática. A cada encontro semanal da Iniciação Científica, eu entendo cada vez mais o que é se tornar uma leitora ativa.

Ao começar a ler Medeia, não entendi muito bem como eu conseguiria traçar minhas próprias reflexões acerca do texto. Não entendi, na verdade, nem qual tema seria debatido acima da leitura. Para mim, que não estou acostumada com esse estilo de leitura, o texto pareceu rebuscado e complexo demais e eu, que não possuo uma autoconfiança muito alta, desisti de tentar entender e me tornei, quase sem perceber, uma leitora passiva diante daquele texto. Mas, a partir dos primeiros minutos de debate junto das minhas companheiras da Iniciação, todo o olhar crítico que se escondeu em mim voltou a aparecer.

Medeia foi, na minha opinião, a leitura mais difícil até agora. Mas, depois que consegui pensar nas primeiras pequenas intenções daquele texto, não consegui parar de procurar mais reflexões. O fato de ter sido escrito há tanto tempo atrás foi um dos pontos que mais me intrigou, a forma como as metáforas usadas ao longo do texto ainda podem ser trazidas, por mais que adaptadas, para a atualidade de uma forma que se encaixem perfeitamente. Porém, o que mais me deixou presa ao texto foram as ambiguidades que só são percebidas após um longo processo de análise, que pode ser enriquecida com um debate sobre a narrativa. Como, por exemplo, a perspectiva feminista refletida na trajetória da personagem principal, Medeia, ter suas contradições.

Nos primeiros passos da análise, as referências sobre o feminismo parecem até mesmo óbvias, principalmente para as leitoras. Porém, ao construir um olhar mais detalhista sobre a obra, percebe-se o quão problemático é considerá-la um texto feminista. Enquanto as ações de Medeia refletem questões que parecem romper com o patriarcado, como matar os próprios filhos e buscar ser uma mulher independente, podemos perceber ao longo de toda a história que todas as suas ações têm um motivo em comum: afetar um homem. Portanto, não seria apenas um reforço de toda a devoção feminina à imagem masculina em sua vida?

O Coro, um dos personagens mais interessantes, está dentro do texto para representar, muitas vezes, o que nós, leitores, queremos dizer para Medeia. O fato de ser composto apenas por mulheres faz do Coro um artifício para a condução dos sentimentos do leitor, frequentemente nos levando a sentir empatia pela Medeia, assim como nos aproxima desta personagem, provocando a nossa compreensão para com as atitudes dela. Porém, claramente sendo um dos personagens esféricos mais densos que eu já li, o Coro pode ser entendido de outra forma - ou de várias formas.

Outra interpretação para o Coro seria o deste como o subconsciente da Medeia, sendo o seu lado menos passional. E, em algumas passagens do livro, constata-se na fala desse personagem pensamentos que demonstram a dualidade dos sentimentos de Medeia. Por um lado, uma mulher traída e abandonada buscando a atenção de Jasão; do outro, uma mulher buscando ser forte para seguir em frente, mesmo que precise atingir os filhos e o próprio Jasão para isso.

Na leitura posterior, intitulada "Gota D'água" e escrita por Chico Buarque, minha visão sobre alguns aspectos da história mudaram, mas não de forma radical. Por ser uma releitura de uma narrativa de muitos séculos passados, muitas adaptações foram feitas, porém a essência da história foi mantida. Afinal, será que a estrutura social na qual vivemos mudou?

Chico Buarque, conhecido por escrever livros e músicas a partir da visão feminina, constrói mais uma obra entrando nesse universo. Ao ler o texto, senti o impacto de estar em contato com uma realidade muito mais próxima do que aquela descrita em Medeia, já que os elementos contemporâneos presentes em Gota D'água me aproximaram mais do texto, como a discussão sobre as lutas de classe mais próxima da minha realidade. Sendo influenciada pela leitura de Medeia, procurei os aspectos que se relacionam com a primeira leitura.

As diferenças entre os comportamentos de acordo com o papel de gênero dos personagens é um dos pontos mais relevantes e perceptíveis. Enquanto as mulheres são retratadas como pessoas que se mantém sempre em casa, conversando sobre suas vidas de uma forma séria, os homens são retratados de forma infantilizada, sempre num bar. Portanto, não apenas os comportamentos colaboram para a criação de uma imagem muito estereotipada dos personagens, mas também outras caracterizações, como os espaços supracitados e os nomes masculinos, que são, na verdade, apelidos.

A leitura de Gota D'água me deixou incomodada, assim como Medeia, mas por motivos diferentes. Em Medeia, a forma indiferente com que são tratadas as ações misóginas de Jasão me deixaram, muitas vezes, desconfortável com a leitura. As falas abusivas e as agressões me fizeram frequentemente perder o ânimo com a leitura. Para a minha surpresa, mas nem tanto, a professora Raquel comentou exatamente sobre isso durante um dos encontros, o que me fez prestar ainda mais atenção nesse ponto. Como discutimos, estou acostumada a viver num momento histórico em que as relações de gênero, assim como as interpessoais em geral, estão sendo cada vez mais problematizadas e desconstruídas. Dessa forma, ao ler um momento de abuso masculino, eu espero que o autor problematize o ocorrido ao longo da obra, o que não ocorreu em Gota D'água e em Medeia. Porém, acredito que o meu incômodo tenha sido maior lendo o livro do Chico Buarque por eu me sentir mais próxima da realidade dos personagens.

Ademais, o Coro foi mantido na releitura. Entretanto, dessa vez, talvez por ser uma adaptação de acordo com o tempo em que foi escrita, ele não é mais composto literalmente por mulheres em um coro, mas pelos personagens e seus comentários ao longo do livro. Agora, o Coro também tinha voz masculina, representadas pelas companhias de Jasão. Novamente, como uma figura complexa dentro da peça, através dele nós podemos analisar muitos outros aspectos da história.

De um lado, as vozes masculinas são encharcadas de infantilidade e irresponsabilidade, através de comentários desmedidos e maldosos sobre Medeia e toda a sua situação complicada. De outro lado, as vozes femininas são, sobretudo, cuidadosas. É possível sentir a presença da responsabilidade e da empatia entre as mulheres, diferentemente dos homens. Portanto, novamente, o Coro é construído de forma riquíssima, sendo um personagem chave para a compreensão da intenção da obra.

Por último, foi lido o livro "Mata teu Pai", da autora Grace Passô, publicado em 2016. Por ser um livro ainda mais atual do que Gota D'água, tive a mesma sensação durante a leitura, me sentindo mais próxima da realidade dos personagens. Das três obras, achei que essa foi a mais clara de todas, com a linguagem direta e sem muito rebuscamento. Com isso, eu consegui acompanhar mais o ritmo da escrita, sem precisar voltar muitas vezes para tentar entender algum trecho, como fiz em Medeia e algumas vezes em Gota D'água.

Mata teu Pai tem um grande diferencial em relação às outras leituras: ser escrito por uma mulher. Esse fator muda muito a experiência dos leitores, pois apenas uma mulher consegue explicitar de maneira fiel a forma como as mulheres se sentem na nossa sociedade patriarcal. Ademais, trata-se de uma peça que aborda temas graves e atuais mais explicitamente, como o estupro sofrido por uma das protagonistas.

Além disso, os filhos, que estão presentes em Medeia e Gota D'água, são transformados em filhas e, ao longo da leitura, as leitoras constroem uma identificação com elas. Essa estratégia, que pode parecer dispensável, na verdade abre portas para diversas interpretações diferentes daquelas que estavam previamente estruturadas pelas leituras anteriores. Por que filhas mulheres e não apenas filhos numa linguagem neutra? Ao me perguntar isso, um turbilhão de ideias tomou conta de mim. As filhas mulheres representam, ao meu ver, todo o comportamento feminino construído ao longo da história, e isso fica mais claro ainda ao final da leitura, quando a Medeia entrega uma arma a uma espectadora. Confesso que eu esperava um final diferente. Nessa cena em que a arma é entregue, eu imaginava que haveria uma maior interação com o público, em que uma mulher, ou mais de uma mulher, da plateia decidiriam o final para o pai.

Um dos pontos mais importantes pra mim foi o fato do Jasão não ter espaço para justificar as suas ações. Diferente dos outros livros, esse foi o primeiro que eu senti que as problemáticas envolvendo o mundo feminino e o patriarcado estavam sendo expostos para gerar questionamentos densos e reflexões profundas nas leitoras. Enquanto Medeia e Gota D'água me deixaram incomodada com a naturalidade dos abusos masculinos, Mata teu Pai me deixou em uma situação agradável, porém não necessariamente confortável.

Mata teu Pai tem o propósito de discussão muito mais direto. A autora busca debater sobre a sociedade patriarcal e o mais importante: eu, como mulher, senti que ela queria que eu participasse das problemáticas do texto, me sentisse atraída pelas reflexões e desconstruções. As diversas e heterogêneas mulheres apresentadas no texto não estão na narrativa sem propósito, muito menos o fato das figuras masculinas serem silenciadas. A sensação é de que é um livro para o público feminino, para buscarmos ecoar em nossas mentes o papel social imposto a nós e todas as consequências que isso nos traz, porém não significa que o público masculino não possa se sentir afetado pela peça. E essa sensação que eu tive de que o livro seria diretamente para as mulheres revela que, quase sem perceber, excluí a possibilidade dos homens se colocarem no lugar das mulheres, ou mesmo sentirem interesse em o fazer.

Por fim, gostaria de ressaltar o quanto os encontros estão cada vez despertando a leitora ativa que há em mim. E, como consequência das três primeiras leituras do projeto, o meu olhar crítico sobre os textos aparentemente feministas se tornou mais apurado, em que as minhas relações entre ser mulher e ser leitora se tornaram infinitamente mais estreitas, o que é também uma consequência direta de todos os debates de leitura serem feitos apenas entre leitoras mulheres nos encontros.


Mulheres de todos os males artífices

A relação plurissignificativa das Medeias com o matar e o morrer

Déborah Amorim


"Disponho de muitos caminhos, para lhes dar a morte, não sei, amigas, qual ensaiar primeiro. [...] Avança para esse fim terrível; agora é a luta dos ânimos fortes. Tu vês o que sofres. [...] Além de que nascemos mulheres, para as ações nobres incapacíssimas, mas de todos os males artífices sapientíssimas."

Extrato da fala de Medeia retirado da peça de EURÍPEDES, 431 a.C.


É muito difícil participar de uma conversa repleta de mulheres sem deixar nossas palavras externalizarem nossas próprias vivências. Desde o primeiro encontro, quando falamos do texto "Leituras: do espaço íntimo ao espaço público" de Michele Petit, já nos perdemos em histórias sobre as nossas experiências como leitoras e entramos em uma reflexão profunda sobre como o ato de ler se torna um momento de fuga da realidade para as mulheres há séculos. A nossa leitura de Hora de Alimentar Serpentes nos mostrou que Marina Colasanti não se priva de preencher muitos de seus minicontos com uma narrativa extremamente feminina e feminista - então como poderíamos fazer diferente?

Talvez por isso ler "Medeia" foi um sopro de vitalidade. Fiquei estupefata com a abordagem de uma peça tão antiga que, depois de superadas a linguagem rebuscada e as referências desconhecidas, consegue capturar a atenção do leitor do início ao fim e provocar discussões assustadoramente atuais - tanto que incentivou a escrita de "Gota d'Água" e "Mata teu pai", duas releituras relativamente recentes. Verdade seja dita, acompanhar os conflitos de Medeia, Joana e Medeia novamente me fez ficar perdida no tempo: seria essa uma peça futurista ou seria o futuro uma peça ultrapassada?

Comecei minha experiência com a história de Eurípedes sem muitas expectativas, mas não tardei a criar uma certeza em minha mente: Medeia morreria no final e provavelmente seria pelas próprias mãos. Diversos detalhes da narrativa da peça mostravam Medeia como uma personagem desprezada, injuriada ao ponto de causar mal aos outros e a si mesma; e por algum motivo isso ficou gravado em mim.

Logo cheguei à conclusão de que as tragédias clássicas não têm sua fama à toa. Cada palavra lida me afundava em indignação e, em alguns momentos, eu me sentia em um teatro grego gritando acusações contra os personagens, chorando suas lágrimas e tentando entender suas ações. Toda a ambiguidade do conflito de Medeia se torna um turbilhão de sentimentos no espectador e principalmente para mim, como mulher, me incomodava ver o quão nociva era a relação entre Jasão e Medeia. As reflexões do Coro de mulheres mostravam nitidamente que Medeia se doou a Jasão como ele nunca havia se doado a ela. Agora, em uma mistura de delírio, cólera, amor e ódio, tudo parecia justificável para prejudicar um homem tão abominável - inclusive matar os próprios filhos.

É perceptível que a falta de nome das crianças já pretendia desde o início da peça criar um distanciamento entre o leitor e os meninos. Todo o drama é tecido para que andemos em uma corda bamba, ora pendendo para a raiva de Medeia e concordando que sim, os homens têm que morrer!, ora temendo o caminho pelo qual todo esse ódio por Jasão iria levá-la. No final, Medeia queria tanto romper seu vínculo com o homem a quem pertenceu e por quem foi abandonada que matar seus filhos parecia a única opção viável. E assim o fez.

Foi então que pensei "É agora que ela se mata!". É isso o que se espera do mundo literário. Quando uma pessoa faz algo tão ruim, ela se mata depois para não conviver com a culpa. Esperei ansiosamente uma morte que não veio. Fiquei confusa. Como não? Estava tão certa... Porém só entenderia o porquê desse final depois que lesse "Gota d'Água".

Na peça de 1973, Medeia não se chama Medeia, mas sabemos quem ela é. Fiquei tão envolvida com a peça de Eurípedes que a mudança de cenário e contexto se apresentaram à mim como um grande mistério. "Por que tantas mudanças?" me perguntei antes de entender que muito não havia mudado.

O primeiro aspecto que me chamou atenção em "Gota d'Água" foi os nomes dos personagens, pois achei curioso o fato de existirem nomes antigos (Jasão, Creonte...), nomes novos (Joana, Alma...) e apelidos cômicos (Cacetão, Boca...). Não dei muita atenção a isso de primeira, mas à medida que fui progredindo na leitura todas as linhas começaram a se costurar: só os homens da história de Eurípedes mantiveram seus nomes gregos. Com um detalhe não tão sutil, Chico Buarque e Paulo Pontes conseguem nos dar a sensação de que aqueles homens, quando não são um coro de figuras imaturas que estão sempre no bar fazendo comentários que dizem jus a seus apelidos, são os exatos mesmos homens de "Medeia". Enquanto isso as mulheres, mesmo sendo outras, novas e com nomes próprios, sofrem por causa de coisas que vieram do passado.

"Gota d'Água" como um todo tem um tom que se difere muito de Medeia - talvez a diferença de milênios de um para o outro esteja relacionada a isso; talvez seja a presença de um Coro masculino contrapondo o Coro feminino; ou talvez seja a ambientação em um Rio de Janeiro não tão antigo. O que mais me prendeu na peça, entretanto, foi fazer o paralelo de cada momento das duas histórias. Realmente, ler "Medeia" foi muito marcante para mim e a peça de 1973 não trouxe o mesmo brilho aos meus olhos, portanto eu buscava características similares e divergentes como um artifício para manter viva em mim a chama que Medeia acendeu.

Quando li a peça clássica esperava que Medeia se matasse. Contudo, quando isso aconteceu com Joana, me entristeci. Em palavras simples: não gostei. Após um tempo refletindo, compreendi que Medeia matar os filhos e não se matar era um ato plurissignificativo. Ela matou os filhos como uma alternativa a matar o amor de Jasão, tirar-lhe algo de importância e, de alguma forma, se libertar de uma relação mais materna do que amorosa, uma relação que surgiu com um garoto bem jovem que "não sabia nada de mulher nem de samba" e que sugou Joana até ele estar maduro o suficiente para viver a própria vida. Matar os meninos era matar uma mãe amargurada que perdeu o domínio do seu corpo e do seu ser. Se matar pode ter sido uma forma de Joana reconquistar poder sobre si. "Me mato, mato e me vingo", dizia a mulher em delírio, transbordando raiva, dando dicas de seu destino na história, "Me vingo, me mato e mato". Tudo, mais uma vez, por Jasão.

Da mesma forma que "Medeia" fez, "Mata teu pai" me deixou com expectativas. Será que dessa vez era Jasão quem iria morrer? Quem mataria quem? Minha mente estava perdida em perguntas e conseguiu se perder mais ainda ao começar a leitura da peça de Grace Passô. Há um abismo que separa a escrita de um homem e a escrita de uma mulher. Ver a Medeia sob a perspectiva de Grace me atingiu muito mais afundo do que eu poderia esperar - mergulhei de cabeça nesse mar de palavras que eu não compreendia, pensamento perdidos, frases repetidas... Não havia homens em "Mata teu pai", apenas mulheres, e ao mesmo tempo que isso era reconfortante, havia uma honestidade crua que não era tão confortável assim.

Dessa vez, me vi obrigada a me desprender da Medeia original da qual eu tanto gostava para tentar entender minimamente as Medeias dos dias atuais. Algumas correlações eram explícitas, outras já não vinham à mim tão naturalmente. "Mata teu pai", em uma proposta diferenciada, fez com que me sentisse uma invasora não na vida de Medeia mas em sua mente. Delirei seus delírios em um misto de confusão e ódio. Nenhum homem poderia ter escrito sobre tantas mulheres sem gerar a competitividade que vimos na peça de Eurípedes entre Medeia e a filha de Creonte ou na peça "Gota d'Água" entre Joana e Alma; eles simplesmente não nos entendem. Por mais que eles tenham escrito história espetaculares, estimuladoras e que captam a atenção do leitor sem prelúdios, foi Grace, como autora mulher, que trouxe a real dor de Medeia para nós. Sem a presença de Jasão (ou de qualquer outro homem), não havia uma ambiguidade tão marcante que nos fizesse sentir pelos dois lados da história. Em "Medeia" e em "Gota d'Água" experimentei muito disso: querendo ou não, sentia pena de Jasão. Havia uma certa simpatia por ele quando lia sobre seus sentimentos e seus próprios conflitos. Nunca imaginei que ler tudo na perspectiva de Medeia fosse me deixar tão desconcertada.

No final tudo aconteceu muito rápido. Na plateia estavam as filhas, pela primeira vez mulheres, assistindo a loucura de sua mãe. Quando a arma é dada para uma das meninas, seguro o ar por um momento sem saber o que viria a seguir. Pela primeira vez não esperava que Medeia matasse as crianças e muito menos se matasse. Queria que Jasão sangrasse e queria que todos os homens como ele experimentassem o mesmo gosto amargo. Estar entre mulheres me deu forças. Mas as filhas morreram em um ato nobre de Medeia. Ela, sempre uma mãe com medo. Nós, com medo também, sempre presas ao nossos pais.

"Medeia", "Gota d'Água" e "Mata teu pai", juntos, construíram a trilogia perfeita.

Terminei "Medeia" pensando no quão avançada a peça era para sua época, até eu mesma perceber que, no final de tudo, cada coisa que Medeia fazia era para Jasão e por Jasão. Terminei "Gota d'Água" indignada: eu, que no início queria tanto a morte de Medeia, percebi que não queria que ela morresse por Jasão porque, convenhamos, ela era muito mais do que ele. Então, terminei "Mata teu pai" sem conseguir respirar direito. Eu sabia o desfecho. Sabia que as crianças morreriam. E mesmo assim me assustei, temi, me surpreendi. A arma passou por minhas mãos e foi tirada delas. Senti o poder e a impotência em sequência. Perdi-me em ilusões com uma única certeza de que nas entrelinhas de cada palavra havia dor. Havia tanta dor! Terminei "Mata teu pai" sem fôlego porque, finalmente!, Medeia não agiu pensando em Jasão e sim na dor que todas as suas filhas sentiriam ao viver em um mundo modelado, do barro, por mão de Homem*.

*COLASANTI, M. Hora de alimentar serpentes. 1ª edição. São Paulo: Global Editora, 2013. Referência ao conto "A partir do barro".


Construídas para sermos o que eles querem

Uma análise sobre as expectativas acerca da mulher e os relacionamentos na nossa sociedade

Maria Clara Freitas


Entender o que nós sentimos ao ler uma obra é um processo complicado e de, principalmente, autoconhecimento. Analisar e colocar em palavras as sensações que Medeia, Gota D'água e Mata Teu Pai trazem a nós, um grupo de mulheres, pode ser por muitas vezes um desafio que nos leva a relembrar as nossas próprias experiências de vida.

Dito isso, estou há muitos dias olhando para um documento vazio, estagnada, enquanto há uma chuva de comentários em minha mente. Ser uma mulher e ler histórias com mulheres fortes e marcantes me deixa dessa forma. É um reflexo da nossa realidade. Você, mulher, consegue contar nos dedos das mãos quantas vezes teve uma enxurrada de pensamentos e não conseguiu colocar nenhum deles em palavras? Eu não consigo.

Somos ensinadas desde o nascimento a concordarmos com o que nos é imposto e quando uma mulher foge desse padrão ela é tratada como megera. Discordar, no corpo de uma menina, é extraordinário. Cada não que uma mulher tem a força e coragem de proclamar é um ato revolucionário que vamos conquistando aos poucos individualmente.

As três obras literárias citadas anteriormente serviram como base para nossos debates durante as reuniões e decidi que deveria escrever sobre a construção da mulher dentro dos relacionamentos amorosos na nossa sociedade.

Ao iniciarmos a nossa trajetória com Medeia pude perceber que muito do passado se perpetua no nosso presente, inclusive algumas opiniões minhas. Em um drama que constrói toda a ruína da personagem principal acerca da separação dela e de Jasão, a mulher nutre dentro de si um sentimento forte de vingança e a necessidade de ser livre daquele passado que a magoou intensamente. Em meio a todos os seus discursos calorosos, Medeia tinha que lidar contra o Coro, que foi interpretado por mim de duas formas diferentes ao longo da peça.

A primeira interpretação seria de que o Coro poderia representar a sanidade da feiticeira. Desde quando o seu companheiro decide se casar com outra mulher Medeia se vê em um estado de repleta amargura e ressentimento e quando demonstra isso em voz alta muitas vezes é levada pelo Coro a analisar o outro lado da moeda. Entendi como se fosse a sanidade dela chamando-a de volta para a realidade, fazendo a mesma repensar diversas consequências do que poderia acontecer por conta de seus impulsos e pensamentos negativos.

A segunda interpretação seria de que o Coro seria a sociedade e o caráter moral que a mesma carrega consigo. Pode ser analisado em muitas das cenas como algo que os próprios espectadores poderiam estar pensando e o que era defendido e levado em consideração naquela época.

Eu sinto que em muitos casos o Coro expôs opiniões minhas também. Me identifiquei com o grupo de mulheres por elas trazerem, também, uma característica mais compreensiva tanto em relação à Medeia quanto aos outros personagens. Esse espírito mais amenizador e conselheiro é extremamente importante para guiar a trama até o final e ajudar os espectadores a entender o que está acontecendo e se sentir parte do enredo, assim como eu me senti ao ler a obra.

Admito, após ter dado a minha opinião sobre alguns elementos da peça, que Medeia foi a leitura que menos gostei. Não me envolvi da forma como as minhas companheiras de leitura se envolveram e acredito que tenha sido por diversos motivos, sendo o principal a visão caricata que eu tive dos personagens. Senti em muitos casos uma infantilidade gritante nas discussões de Jasão e Medeia, principalmente quando transferiam a culpa de um para o outro, o que caracteriza uma sobreposição do egoísmo dos dois.

Acredito que se criou um falso feminismo ao longo da história. A sensação de que Medeia fez o que fez para poder se desligar completamente daquilo que já fez parte dela um dia na minha opinião serve mais para camuflar uma dependência monstruosa que a mesma tinha por Jasão a ponto de até matar os filhos do casal para afetá-lo e por ressentimento do que os dois construíram um dia.

Sinto que Medeia poderia ter sido construída de forma diferente, analisada e valorizada de forma mais complexa, para além da caricatura. Posso estar pedindo demais dado o contexto histórico da peça, porém não posso ignorar meu incômodo. Assim poderia ser compreendido o objetivo de retratar a independência da mulher e o porquê exatamente de ela ter optado por planejar as atitudes que tomou, se é que o autor (homem e na Grécia antiga) tinha alguma intenção.

Não posso apenas criticar sem levar em consideração toda a importância e influência que a tragédia grega teve para futuras obras e eventos mundiais. Foi a primeira vez que uma mulher que abandonou todos os traços característicos femininos foi retratada sem ser de forma pejorativa, apenas para ilustrar que as pessoas são complexas e o natural de cada gênero na verdade é uma construção. O problema foi: não consegui me envolver.

Como disse anteriormente, Medeia teve um impacto considerável em muitas obras, permitindo que houvesse diversas releituras a partir da original. Tal fato nos deu a oportunidade de trabalhar com Gota D'água logo após a leitura da primeira citada.

Gota D'água é construída em uma realidade muito mais familiar à nossa. Neste caso a história se passa em uma vizinhança popular, com o desenvolvimento de todos os estereótipos atrelados ao gênero e a classe social dos personagens. Em uma história que me envolveu muito mais e se mostrou muito mais respeitosa na construção da complexidade de cada um dos personagens, existem três principais grupos: o dos homens, o das mulheres e o da família de Creonte.

Os homens representam quase que um Coro de Jasão. São sempre vistos no bar, fazendo piadas de mau gosto e tendo conversas rasas. Tratam os sentimentos de Joana de forma insensível, dando cor à construção de que o homem é intocável e a figura masculina não leva em consideração sentimentos porque não é algo que afete a eles. Só a partir daí garanto que quem está lendo consegue relacionar esse padrão masculino a muitos homens das nossas vidas. Lembro que no dia da discussão falamos muito sobre como conhecemos aqueles personagens porque eles fazem parte do nosso cotidiano.

Além disso, muitos dos nomes e personalidades da obra original se repetem. Os personagens Jasão, Creonte e Egeu são praticamente iguais aos de Medeia, tendo o mesmo papel na trama. Eu entendo essa permanência dos nomes não só como uma mera repetição, mas como uma analogia ao fato de que os homens, apesar do tempo entre uma peça e outra, não mudaram. Permanecem parados no tempo, retrógrados e machistas.

As mulheres têm uma forma de organização completamente diferente. São compreensivas, amigas de Joana. Estão sempre se preocupando com suas responsabilidades e trabalhando, dando suporte uma à outra. Servindo como o Coro de Joana, as mulheres apoiam e se preocupam com Joana acima de qualquer coisa, demonstrando o apoio feminino e a consciência de que as mulheres devem estar juntas com as outras, pois nós sabemos qual é a nossa realidade.

Apesar de terem optado por manter os nomes dos personagens masculinos, os autores fizeram o oposto com as personagens femininas. Todos os nomes foram modificados, permitindo que eu pudesse então concluir que os autores quisessem demonstrar que as mulheres precisaram mudar, se unir e amadurecer cada vez mais com o tempo. Ao contrário dos homens, nós, mulheres, precisamos desenvolver uma consciência e um senso de empatia e força diante da sociedade na qual estamos inseridas.

Atrevo-me dizer também que há mais um significado para a mudança destes nomes femininos. Acredito que essa alteração pode demonstrar também que são muitas as mulheres que são submetidas a esse tipo de situação, sendo todas muito diferentes uma das outras, com características diferentes, adversidades diferentes, reações diferentes. Já o homem tem a mesma atitude, a mesma cara, a mesma personalidade. O ato de manter os nomes demonstra que é a mesma identidade: a de violência, superficialidade, superioridade.

Na peça de Chico você chora, sente e vibra com cada um dos personagens, visto que a complexidade deles é muito bem trabalhada desde o princípio. Nela você sente o impacto ao analisar que as atitudes se repetem e a sociedade mantém costumes e opiniões de séculos atrás. Consegue se envolver ainda mais por ser uma história próxima a nós e por hoje eu ainda conseguir identificar cada uma daquelas pessoas em minha vida. Poderia ser eu vivendo aquilo. Pode ser eu a próxima mulher a viver uma situação desse tipo. E aí é quando a gente começa a refletir.

Dito isso, é inevitável analisar como os nossos relacionamentos são construídos. Tanto na Medeia quanto na Joana pode-se observar o quanto há essa relação de maternidade(ish)* com o próprio Jasão. Esse homem se desenvolveu a partir do relacionamento que teve com a personagem principal e quando há a separação é como se ele estivesse simplesmente negando todo o esforço que a mulher teve para tornar ele quem ele é. A partir disso, pude compreender o que significava matar os filhos principalmente sob a ótica de Gota D'água: ela matava essa relação de mãe-filho que ela tinha com o próprio Jasão. Não era apenas o que restava da história dos dois que ela estava encerrando, mas sim essa relação quase que maternal que ela tinha com o próprio companheiro, como quando em diversas de suas falas deixava claro que foi ela quem criou o homem que Jasão era naquele momento.

É assim que os relacionamentos amorosos em sua maioria se constroem na nossa sociedade. O homem tem o papel do homem: se manter em sua zona de conforto, agir de forma descuidada e cobrar da outra parte tudo o que não é o seu papel fazer. A mulher, muitas vezes por achar que deve ser assim, ainda cuida da casa, tem que ser vaidosa com o objetivo de agradar a ele, cuidar da saúde dele, lembrar de fazer a marmita dele, colocar o prato de comida dele e cuidar de forma muito mais afetuosa dos filhos, sendo tudo isso de forma compulsória e não necessariamente por ser da sua vontade. A verdade é que nós continuaremos sendo Medeias e Joanas enquanto a sociedade continuar nos ensinando que é normal que a mulher seja sempre mãe e não companheira.

*-ISH é um sufixo em inglês que significa "um tanto", "aproximadamente", "mais ou menos".

A perpetuação das Medeias e das Joanas pela sociedade patriarcal

O entrelaçamento de algumas aprendizagens e reflexões sobre o ser feminino a partir da leitura de Medeia, Gota d'Água e Mata Teu Pai

Marcela Nunes


Não sei exatamente como começar a falar sobre mulheres. Medeia. Joana. Marcela. Todas são mulheres que vivem em um mundo patriarcal, machista, estruturado de maneira que as mulheres são ensinadas a serem submissas, caladas, bondosas, prestativas, centradas, eficientes, calmas e controladas. Nada além disso. Seja no século V antes de Cristo, seja no século XXI. Por isso, ler a história de uma mulher como Medeia ou Joana não é apenas a ficção de uma pessoa que, uma vez traída, mata seus filhos em um ato de desvinculação com a figura materna. Ler Medeia, Gota d'água e Mata teu pai é o ato de ler a história que poderia ser minha. É incontestável que, apesar dos séculos de diferença, as condições atreladas aos seres do sexo feminino não sofreram tantas mudanças, da mesma forma que o opressor Jasão teve seu nome mantido na obra de Gota d'água, pois o opressor não mudou. Nem mudará. O patriarcado continua matando Medeia, Joana, filho 1 e filho 2. Até o ápice, uma súplica: Mata teu pai!

Medeia é o primeiro banho de água fria durante a trajetória de leitura dos três livros. Em meio a descoberta de um gênero literário não tão familiar, me fascinei pela inteligência de Medeia e pela forma como ela conseguia articular e argumentar a favor de sua causa. Todavia, isso não é incomum para as mulheres de hoje em dia, que, geralmente, precisam desenvolver o seu lado persuasivo para sobreviver em um mundo no qual a figura feminina só tem voz se o homem quiser escutá-la. Além disso, é extremamente interessante observar como ela é tida como insana, maluca e tresloucada devido ao fato dela usar sua inteligência. Bruxa? Feiticeira? De fato, a Medeia apavorava as pessoas ao seu redor. Porém, isso acontecia devido a sua capacidade surpreendente de raciocinar e convencer e pessoas a agirem segundo seus planos. Isso não é, nem nunca foi, objeto de tanta admiração, mas deveria. Ser mulher, mãe, aguentar o mundo nas costas e no seu colo ainda é tido como natural, biológico, e não como uma força e uma sabedoria sobre-humanas que somos obrigadas a desenvolver.

A experiência de viver por alguns dias com essa personagem me causou algumas dúvidas, ignorante em peças teatrais e dramas que sou. O coro, que parecia a consciência da Medeia em alguns momentos e, nos outros, mulheres que a rodeavam, me deixou um pouco confusa por não saber como interpretá-lo nem como encaixá-lo na história que eu estava montando na minha cabeça. Contudo, após alguns questionamentos e esclarecimentos durante debates sobre o livro, fui capaz de compreender que o coro é um comentador que guia a história e nada mais justo do que ele ser formado por mulheres da Grécia. Desta forma, eu pude confirmar um pouco mais a teoria que eu estava sustentando dentro de mim: Medeia, um livro da Grécia antiga, tinha muito o que falar sobre a união feminina e a sororidade. Era surpreendente como eu conseguia aos poucos trazer cada trecho e cada vírgula da obra de Eurípides para o meu cotidiano. Perceber que era, sim, possível interpretar muito da nossa vida atual em um livro tão antigo me encantou de forma que não ocorria há algum tempo.

É impossível ignorar, ainda mais com os comentários das minhas amigas de debates, que a narrativa de Medeia não pode ser vista apenas com uma lente: a de que ela está sofrendo as consequências de um mundo extremamente patriarcal e machista, refletido na traição de Jasão, o que culminou na morte dos filhos, pois é a única maneira de atingir o seu traidor. Eu precisei abrir meus olhos no decorrer do debate, para a forma como todas as ações da Medeia estão focadas em um homem, toda a sua vida está centrada nele. Seus filhos? Pouco importam perto da importância de seu ex-marido. Porém, apesar dela, de fato, abraçar esse papel ambíguo, para mim é evidente que até mesmo a ambiguidade é consequência do meio em que está inserida. Ela querer se vingar, mesmo que isso flagele seus próprios sentimentos, deixou-me aflita e me levou a uma torcida inconsciente para que ela desistisse de tudo, por mais que desta forma Jasão continuasse imerso em sua bolha de paz e perfeição.

Ler os diálogos de Medeia e Jasão me transportava a muitos diálogos que eu presenciava dentro de casa: a mulher sugada até a espinha, cansada e esgotada, com todos os seus nervos expostos fora do corpo, enquanto o homem fazia o que queria, sempre com o pretexto de estar fazendo o melhor pra todos. É frustrante como eles agem como se ditassem o que é bom e o que não é para todos ao seu redor. Por outro lado, nesses mesmos embates entre as figuras máximas do livro, eu me senti muito movida e surpreendida quando percebia os tons sutis, às vezes nem tanto, dos deboches e ironias de Medeia para contestar Jasão, cujos argumentos eram muito fracos em contraponto aos seus atos ríspidos e vazios contra a sua ex-esposa.

É perceptível a forma como esse primeiro contato com o livro me deixou atormentada de teorias e encantada com o poder da literatura e das nossas subjetividades de trabalharem juntas na atualização dos textos a partir das nossas vivências. Esta linha de raciocínio se despertou em mim a partir da análise de muitos elementos que estavam presentes tanto na narrativa da peça quanto na narrativa da mulher contemporânea, o que me levou ao questionamento: será que um escritor do século V a.C. teve o objetivo de dialogar com a posição subalterna que a mulher é colocada na sociedade ou essa perspectiva tomou forma a partir das ligações e conexões que eu fazia entre um texto antigo e a minha atualidade?

Sendo assim, observar, como espectadora, a forma com que Medeia arquitetou todo um plano convencendo uma personagem de poder masculina, o Egeu, e notar como ela era temida pela autoridade masculina do local onde morava, Creonte, me permitiu a conclusão de que ela era taxada de louca pois ela era um perigo às posições de destaque dos homens da peça. Esta atitude masculina de agir em contra-ataque, na defensiva, perante às mulheres é muito recorrente em todos os âmbitos do meu dia a dia: na escola, na minha casa, nas redes sociais que frequento e nas relações que estabeleço durante a minha trajetória. Desta forma, confirmo, mais uma vez, como Medeia ainda estará viva e perpetuada enquanto existir o patriarcado. Medeia é, sim, a bruxa que atormenta os sonhos dos meninos que almejam suas posições de destaque sem batalha nem ameaça.

No final da obra, armada da expectativa de que Medeia desistisse do plano de matar seus filhos a fim de que matasse a si mesma, percebi que o final do livro não foi escondido em nenhum momento. Sempre esteve ali. A quebra de expectativa, no final das contas, foi a concretização de um enredo cantado desde as primeiras palavras do livro. Sendo assim, me senti um pouco decepcionada, mas, já assumindo a minha torcida pela Medeia, senti um pouco de satisfação ao notar que Jasão de fato se sentiu derrotado ao ter seus filhos mortos e levados para longe de si, o que feriu a imagem intocada do homem como o provedor e protetor da prole. Embora ele, de fato, tenha ficado movido por este ato, vale ressaltar como a morte de sua noiva não teve tanta relevância para seus sentimentos. Logo, mais uma vez, a mulher, mesmo a que estava ocupando o atual papel de esposa de Jasão, não é tratada da maneira que merecia.

Gota d'água foi uma leitura que fiz inevitavelmente rápida devido a minha curiosidade de saber como as personagens de Medeia retornaram. Apesar de não ter causado em mim o mesmo impacto da obra anteriormente lida, o livro de Chico Buarque e Paulo Pontes me permitiu novas reflexões e debates que não estavam presentes na obra anterior de maneira tão clara. O primeiro questionamento que eu vivenciei foi acerca dos nomes: Jasão, Joana, Egeu e Creonte. Por que apenas a Medeia se transformou em Joana? Será que isso foi intencional? Todavia, naquele instante, eu não fui capaz de solucionar essa dúvida sozinha com os meus pensamentos, apenas durante o encontro sobre Gota d'água que eu fui compreender a maneira como, mais uma vez, a mulher se reinventa e o homem permanece preso ao passado e aos costumes da Grécia antiga. Iluminar essa teoria em minha mente me auxiliou em todo o processo de significação da narrativa da vida de Joana.

Ademais, eu me diverti criando as cenas descritas no livro. Havia tantos detalhes com a utilização de efeitos teatrais, como a iluminação e a música, que se tornou mais fácil visualizar com precisão a movimentação das personagens e as trocas de cenas. Apesar das descrições da peça tornarem Gota d'água muito mais dinâmica e impactante, elas também foram uma âncora à realidade. Isto ocorreu porque, sempre que eu me encontrava imersa em sentimentos pesados e angustiantes, ler que a luz estava mais forte me confortava por saber que aquelas discussões e injustiças não estavam acontecendo de fato. Entretanto, por mais que o momento seja fictício naquele pequeno instante, a trajetória de humilhação e traição de Joana pode ser percebida entranhada na sociedade brasileira, ela permanece viva na vida de diversas mulheres do nosso país.

Munida de todos os aparatos técnicos teatrais, eu conseguia me conectar muito mais rapidamente com os sentimentos extravasados por Joana e também refletir com o contraste evidente entre as perspectivas masculinas e femininas da peça. Observar que Xulé, Cacetão e os outros homens sempre estavam no bar, falando asneiras e se divertindo no ambiente externo, reforçou a minha concepção de que o homem é construído socialmente a partir de uma relação extremamente rasa com o seu interior. Em contrapartida, as conexões entre as mulheres da peça eram sempre guiadas por uma busca incansável por uma ajuda mútua, que perpassava às suas divergências. Esse aspecto também é notório dentro dos grupos formados por meninas hoje em dia, dos quais eu faço parte, pois são meios em que existe a preocupação de uma dar suporte a outra sempre que necessário.

Após longos debates e reflexões sobre as discussões inquietantes e cortantes de Joana e Jasão, constatei que as suas relações eram permeadas de sentimentos contraditórios e paradoxais. Jasão a machucava, a subjugava, a chamava de velha e reclamava de seu corpo amadurecido pelo tempo. Joana o amaldiçoava, o xingava, mostrava pra ele como ela o ajudou a construir tudo o que ele tinha e tudo o que ele era. Apesar disso, seus sentimentos um pelo outro oscilavam, quase que abraçavam uma rendição. Existia um sentimento de interdependência que sobressaltou aos meus olhos podendo ser entendido como uma mescla entre duas relações distintas, mas nem tão afastadas: a relação romântica e a relação maternal. Joana se sentia responsável por Jasão, enquanto ele queria sair daquele núcleo "materno" para ganhar a vida. Por mais que eles fossem casados e tivessem filhos, os sentimentos entre eles estavam de certa forma estruturados em um cuidado proveniente da mulher perante um menino mais novo que ela. É comum, apesar de preocupante, os relacionamentos que apresentam muitas situações das quais as mulheres encarnam um papel de mãe, e não de companheira.

Logo, o desfecho da obra me moveu profundamente após a reinterpretação que eu pude construir durante as conversas da iniciação científica, porque eu me dei conta de que matar os filhos era matar também a mãe que existia em Joana. Esse era o grande elo que a conectava ao Jasão. Desta vez, ela também encontrou a morte após seus planos de envenenar Alma falharem, o que me levou a um sentimento de tristeza e inconformidade porque aparentemente ninguém se importou. A grande festa de casamento continuou como estava, Jasão conseguiu concretizar sua ambição mesmo sem seus filhos por perto. Agora, refletindo sobre os possíveis acontecimentos que se desenrolariam depois do casamento, minha curiosidade se desperta. Como será que Jasão reagiria ao saber da morte de seus filhos? Provavelmente esse questionamento foi induzido pela imagem de Jasão que eu pude remontar após a peça de Gota d'água, na qual ele se portava como uma pessoa arrependida e em dúvida sobre suas decisões.

Essas dúvidas e questionamentos eu, provavelmente, não terei a oportunidade de sanar, porém eu pude ver com os meus próprios olhos (no caso, ler com os meus próprios olhos) como seria a Medeia nos dias de hoje, no século XXI. E, devo assumir, que o primeiro contato com essa Medeia mais direta, incisiva e explosiva me assustou porque eu demorei para entender a proposta de Mata Teu Pai. Colocada no lugar de uma das filhas de Medeia, me impressionei com o contato direto que a personagem travava com a plateia e, agora, repensando sobre essa obra, concluo que eu gostaria de ver essa peça se tornando realidade diante de meus olhos. Se toda a emoção e efervescência presentes no livro estivessem presentes no teatro, o final certamente seria uma grande implosão do patriarcado.

"Preciso que me escutem", entoou Medeia. Essa frase, apesar de supostamente simples, representa uma verdadeira urgência: nós mulheres precisamos e queremos ser escutadas. Ela colocou em palavras o que todas nós sentimos em algum momento de nossa vida, possivelmente todos os momentos possíveis. Esse contato mais direto e mais palpável da principal com todos os espectadores tornou tudo muito mais intenso e muito mais claro. Isso, inicialmente, me pareceu muito confuso, principalmente com as constantes repetições de trechos que não faziam muito sentido para mim. Contudo, ao colocarmos sobre uma outra ótica durante as conversas, ficou extremamente evidente que ela estava alucinando por causa da febre, o que se tornou uma ferramenta de multiplicação de frases para que ela fosse ouvida e compreendida. A própria Medeia avisou que isto estava ocorrendo, eu deveria tê-la escutado melhor. E esse elemento torna tudo muito mais fascinante, porque ela está expondo toda a verdade, ao mesmo tempo que envolve elementos fantasiosos de seus sonhos que podem ser tanto verdadeiros quanto mentirosos.

Após alguns dias de debates e discussões com mulheres (todas muito fortes e com muito a acrescentar), me dei conta de como ler em conjunto me auxiliou a preencher as lacunas que a minha leitura solitária resultou. Não, não era uma leitura pobre de conhecimentos e interpretações, só não estava completa ainda, pois, quanto mais leituras distintas foram sendo expostas, mais a minha mente conseguiu buscar novas luzes, novos ângulos, novos caminhos e entrelaçamentos para a minha compreensão de Medeia, Gota d'água e Mata teu pai. Com isso, pude mais uma vez perceber como as figuras femininas ao meu redor estão incessantemente presentes e me guiam na minha caminhada, seja em casa ou na escola, assim como a Medéia de Eurípedes teve o coro das mulheres da Grécia, a Joana com suas amigas e vizinhas e a Medeia de Mata teu Pai com as suas filhas da plateia. Mulheres por mulheres, seja na ficção, seja na iniciação científica. Nós por nós.


Subjetividade, vivências e (des)construção
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